sábado, 15 de fevereiro de 2014

O ORGULHO DO PAI

- Juscelino meu amor, preciso falar com você - Falou Graciosa, uma moça formosa que nenhum homem direito e que tenha o celebro no seu devido lugar pensaria em tocar num fio de cabelo dessa flor nordestina. Uma mulher que vira a cabeça de qualquer macho que se lhe botar o olho pensa logo em invadir todo o território daquelas curvas que a flor trouxe da Bahia.
- O que é Graciosa? Não está vendo que estou arrumando as malas, vou-me embora hoje mesmo– Esse que fala agora é Juscelino, herdou esse nome em homenagem ao seu tio falecido antes do seu nascimento, aquele em que sua mãe tanto lhe falava quando ele era moleque das canelas finas e de bola no pé. Virou um mulherengo de primeira, talvez seja essa o resultado de tanta liberdade da sua mãe, avó e tias, não pode ver um rabo de saia que logo corre atrás, um homem criado por várias mulheres e que agora enlouquece ao ver uma.
- É que tu não vai poder mais sair da cidade, Juscelino – continuou a falar a formosa moça.
- E porque não? O que tivemos foi só uma xamego e nada mais, não posso me aqueta em um canto só, é meu trabalho, desculpe Graciosa mais não sinto nada por você, foi só atração.
- Por mim você poderia ir embora, mais é que painho não vai deixar.
Juscelino tomou um susto ao ouvir Graciosa falar “painho”, pois sabia quem era o pai da formosa baiana, um homem que protege a cria com o cano de uma arma de fogo. O caixeiro viajante foi logo sentando afastando a mala aberta pro canto da cama arregalou os olhos e de expressão séria e preocupante fez pergunta na qual a resposta tanto temia.
- E porque não Graciosa?
- Porque ele sabe que estou grávida.
Juscelino tomou outro susto mais agora acompanhado de um salto em direção a Graciosa. As pernas tremeram, o corpo paralisou e o seu olhar focou o nada. Sentiu a morte nas suas costas, temeu em olhar para trás, pois não estava afim de ver a desgraçada de preto com o capuz na cabeça esquelética segurando uma foice na mão.
- Como isso foi acontecer? – Perguntou ele pondo a mão na cabeça.
- Juscelino você sabe – respondeu ela - eu beijei você, você abaixou as calças, eu tirei minha blusa, você a camisa, depois tirei meu sutiã...
- Eu sei o como aconteceu Graciosa.
- Então porque pergunta? – argumentou a suposta vítima da história.
- Ai meu São Judas, Nossa Senhora de Aparecida, Santa Barbara, São Bartolomeu, Santa Inês... - Juscelino que não era nada religioso e nem sabia rezar, foi logo chamando nome de tudo que é santo ajoelhando esperando o cano da arma de seu Sebastião dá um fim em tua vida.
Esse Sebastião é um homem poderoso, rico, dono de terras e de um temperamento que o permite andar armado em tudo que é canto da cidade nordestina vigiando os marmanjos que ousassem olhar pra uma te suas quatro filhas, Graciosa, Belezinha, Lindinéia e Anabella, e aquele que se atrevesse levaria um tiro em cada olho para aprender a não botar as vistas onde não deve. Coitado é de Juscelino, que botou não só as vistas como toda a sua fábrica.
- O que tá fazendo Juscelino? Tá rezando é? – Perguntou Graciosa, vendo o pobre choramingando que nem bebê recém-nascido ajoelhado chamando nome de santos que não acabavam mais.
- Estou só fazendo amizade com o povo lá de cima, pedindo pra guardar uma vaga pra mim.
- Homem filho de Deus, é só casar comigo e tudo se acerta.
- Casar? Como? – Deu um salto pela segunda vez ficando de pé, fitando olhar para Graciosa.
- Eu visto branco, você terno, entramos na igreja, o padre abençoa...
- Eu sei como é um casamento, Graciosa.
- E porque pergunta?
Juscelino já era casado com uma tal de Bernadete lá em Sergipe, tinha três filhos e dois netos, em Pernambuco era casado com Juciléia onde tinha mais dois filhos e um que ainda está para nascer da barriga da irmã de Juciléia, a Jurema, mulheres as quais não o via a mais de anos.
Todos esses casos que citei não foram tão complicados que nem esse, dessa vez o caixeiro viajante foi inventar enfiar a chave na fechadura errada e acabou emperrando, agora tem aguentar as consequências que o chaveiro te traria. Se caso se casasse, Sebastião não o deixaria mais viajar como caixeiro viajante e assim ele não conseguiria escapar como das outras vezes, e se o pai da formosa baiana descobrisse dos outros casos, seria morte na certa, mesmo ele sendo seu sogro.
O silencio tomou conta do quarto da velha pousada de Dona Benta, onde Juscelino estava hospedado, Graciosa sentou em uma cadeira enferrujada tirando uma lixa de unha do bolso do belo vestido florido, cruzou as belas pernas grossas herdadas de sua mãe e começou a acerta as unhas da mão, enquanto o coitado do caixeiro rezava caminhando de um canto para o outro do quarto.
Foi ai que se ouviu do lado de fora, no corredor, a voz grossa e tenebrosa de um homem que parecia estar em fúria, Juscelino não pesou duas vezes, não tinha dúvida, era o carrasco que iria lhe tirar a vida. Começou a caminha mais depressa, ajudava a pensar mais rápido, mas não houve tempo para que uma ideia lhe tirasse daquele sufoco. A porta do quarto foi arrombada e eis então que lhe aparece seu Sebastião com uma arma na mão apontada para o coração de Juscelino, por trás do pai de Graciosa estava Dona Benta que rezava pela alma do futuro defunto, ao lado dela Bentinho, seu neto.
- Ai nossa Senhora tenha piedade dessa alma que está prestes a chegar – falou dona Benta.
Juscelino ficou imóvel, seu corpo paralisou, não sentia suas pernas de tanto que tremia, parecia gelatina tirada da geladeira. Sua testa suava tanto que era capaz do mulherengo morrer desidratado antes que a bala da arma nas mãos de Sebastião lhe atravesse o corpo.
- Reze Dona Benta, pode rezar, porque esse aqui não vive mais, espero que esteja pronto para a visita da morte seu desgraçado – Disse seu Sebastião, mostrando o dente de ouro.
- Pronto? A gente nunca tá pronto pra morrer homem – Comentou Juscelino.
- Mas você, já tem uma cova pronta lá no cemitério da cidade, o padre vem já encomendar sua alma.
- Então vamos aproveitar o padre e apronta o casamento. O senhor não quer ver sua filha viúva antes da hora, quer? Ou não? – Perguntou Juscelino aceitando entrar no plano de Gracinha, pois era o único jeito de salvar a sua vida.
- Casar? – se questionou seu Sebastião
Se Sebastião abaixou a arma e sentou em uma cadeira feite de tronco de árvore, “melhor que lavar a honra da Graciosa com sangue seria casa a caçula, pois já estava embuchada e mulher que abre as pernas antes do matrimonio não casa.” Pensou ele gostando da ideia e assim que o padre chegou foi logo argumentar com quem tinha um enorme respeito naquela cidade, talvez o único, pois não tinha peito para desrespeitar o que vinha da igreja.
- E ai seu padre, tu que é um homem santo, caso a minha filha com esse sem vergonha? Seria justo?
- Claro que seria justo a realização desse casamento sim Coronel, só marcar a data que...
- Daqui à uma hora, seu padre, Graciosa casa daqui à uma hora – interrompeu seu Sebastião a prosa do padre – eu não quero correr o risco do descabaçadero fugir.
O padre então concordou com esse casamento às pressas, pois ninguém tinha moral para bater de frente com o coronel Sebastião. Nem mesmo a igreja. É que o coronel arrecadava fundos para a reforma da igreja, e o padre não iria arriscar perder.
O casamento então começou a ser realizado.
Na igreja estava, além das beatas de sempre, as filhas de seu Sebastião e seus jagunços que vigiavam a porta para não ocorrer uma fuga ali de última hora por parte do noivo.
O padre abençoou os noivos, e começou o falatório comum em qualquer matrimonio.
- Seu Juscelino Fonseca de Aragão da Terra Seca de Vitoria Santos Batista – o padre respirou e continuou - aceita se casar com Maria Graciosa Ferreira Nunes de Sebastião por livre e espontânea vontade?
- Veja seu padre – disse Juscelino – esse era o único jeito de eu não entrar na cova. Então eu digo sim, por livre e espontânea vontade do cano da arma de meu futuro sogro – engoliu a seco quando viu seu Sebastião alisando a arma que carregava na cintura.
- E você Maria Graciosa Ferreira Nunes de Sebastião?
- Aceito sim seu Padre.
- Então troque as alianças, por favor – Pediu o padre. As alianças eram as mesmas usadas no casamento do Coronel por não haver tempo de arranjar outra.
Quando Juscelino botou a mão no bolso para pegar as alianças, que seu Sebastião já havia lhe dado antes da cerimônia, sentiu suas pernas tremerem, o suor descer pela testa e seu coração começou a bater devagar, a pressão baixou e seu corpo caiu no chão, no meio de todo povo da cidade que se encontrava na realização daquele matrimonio forçado.
A partir daí ninguém sabe mais o que aconteceu, o que eu te contei agora foi conjunto de diversos boatos que escutei e escuto até hoje depois de dez anos, eu achei na obrigação de te contar, já que sua mãe fica por ai atraindo tudo o que é caixeiro viajante para o cano da arma de seu avô. A única coisa que posso lhe afirmar depois de tudo que lhe contei é que horas depois do casamento ouvi conversas de beatas de que seu pai, o Juscelino, fugiu com uma velha que todos tinham como bruxa da cidade por causa dos seus feitiços com plantas que encontrava no meio do mato, ela tinha dado um chá para ele desmaiar, assim como morto, no meio do casamento e armar a confusão. Todos dizem que ela colocou seu pai na linha dura, mas também pode ser fofoca, invenção de gente que não tem o que fazer da vida, mas para garantir que não terá o mesmo destino de seu pai, sendo fofoca ou não, escuta menino, quando for atrás de rabo de saia, sempre bole antes um plano de fuga, não invada curvas perigosas sem pensar no depois, é um conselho de pai que estou te dando, já que o seu foi se coçar com uma velha. Escreva o que estou lhe dizendo ou você poderá acabar assim se não for esperto, velha é bicho difícil de lidar, palavras de um homem que fez um trato com uma pra fugir da cova antes da hora. Agora vá jogar bola e me deixe ler o jornal, só fique esperto.
- Está certo então, obrigado por contar do meu pai seu moço, e pelo conselho.
- Certo moleque, vá jogar bola.
O moleque das pernas finas e de bola no pé saiu correndo atrás de uma menina da cidade que se encontrava próximo da praça onde ouviu toda aquela história do caixeiro viajante, e o pai orgulhoso com chapéu de coco na cabeça e jornal na mão observava o filho que se afastava. Não tinha criado o moleque, mas estava sempre por perto, disfarçado, observando seu desenvolvimento.
- Esse ai vai ser que nem o pai – disse Juscelino voltando a ler o jornal orgulhoso, tomando sempre o cuidado de não ser reconhecido e ajeitando sempre o chapéu que o deixava passar despercebido – só que mais esperto.

(01 de agosto de 2012 – Aracaju/SE)

Nenhum comentário:

Postar um comentário